sábado, 1 de setembro de 2012

Sob o signo da luz


 

Meio dia. É mentira que nessa hora as sombras desaparecem. Elas nunca deixam de existir, mesmo quando o sol assume sua posição maior, elas estão ali, escondidas ou roubadas, mas prontas para aparecerem a qualquer momento.
Meio dia. Como comprovamos, numa parada de ônibus nessa hora há sombra. Uma mulher espera a sua condução ali em baixo. Ansiosa, olha em direção ao fim do asfalto com o semblante aflito. Ainda não aprendera a esperar. Precisava ir ao centro, comprar acetona e alguns esmaltes, pois aqueles que as clientes mais gostavam já estavam perto de acabar, e também gostaria de dar uma olhada nos preços de uma nova linha de tons de vermelhos (dos vivos aos vinhos), que sempre faziam sucesso em qualquer época do ano.
Gostava do seu trabalho, e era recompensada por isso, nunca passara uma tarde sem atender pelo menos um cliente. Fazia visitas, atendia em alguns salões de beleza (embora não gostasse tanto do ambiente e dos donos dos estabelecimentos, era necessário), recebia pessoas em sua casa. Às vezes, as “socialites” de outros bairros iam até a porta de sua humilde casa buscar pelo trabalho competente da manicure.
Morava com a mãe, uma senhora que nem era tão idosa, mas que vivia acamada, tomava muitos remédios e dizia que a filha era sua salvação, que agora os papéis estavam invertidos e que a filha passara a ser a mãe e que ela era agora nada além de um feto. A filha não gostava da comparação, mas procurava entender, dando o seu melhor, silenciosamente. Talvez por isso a ansiedade, gostaria de voltar logo para casa, uma vez que sua mãe estava sozinha.
O ônibus não vinha. A rua estava quase deserta, exceto por dois meninos jogando bila, bolinha de gude, no meio do sol escaldante. Nunca havia brincado de bila, mas, quando criança, adorava guardá-las e, às vezes, ficava observando-as contra o sol, como se fossem planetas transparentes, ou como se fossem pupilas e pudesse ensaiar atravessar a alma de alguém. Não entendia como eles estavam suportando pisar naquele chão quente sem chinelos. Meninos...
O calor era tão grande que nem a sombra da parada amenizava a elevada sensação térmica. Nem mesmo seus alaranjados cabelos molhados sobre as costas, nem sua roupa: um short curto e uma camiseta regata. O calor não deixava outra escolha.
Tinha uma relação estranha com seu corpo. Dizia não gostar dele: que era muito magra, tinha pernas finas, pouco peito e, além de tudo, uma barriguinha que saltava dos calções apertados. Mas não gostava de se cobrir. Gostava de sentir os raios do sol fazendo arder a sua pele. Gostava de ver sua pele bronzeada, contrastando com os fios brancos que cuidadosamente mantinha fazendo periodicamente os chamados “banhos de lua”.
Pernas finas inquietas sob a parada e, de repente, o movimento se deteve, o olhar apertou para identificar o nome no letreiro e, enfim, seu destino começava a ser traçado no meio do asfalto, no meio do calor, naquele movimento cheio de luz. Era o seu ônibus!
Subiu pela porta traseira. Antes de passar a roleta, foi surpreendida por um assovio atrevido vindo do último assento. A boca de onde havia saído o som nada gentil era de um rapaz brancoso e aloirado que sempre a cumprimentava de forma meio desastrosa quando se encontravam pelas calçadas e pela pracinha do bairro.
Ele a olhou como que propondo um desafio, e ela, sem saber como reagir diante do par de bilas verdes do rapaz, esboçou um meio sorriso amarelado e dirigiu-se ao trocador, entregando num tilintar as moedas de sua passagem.
Foi rápida, para não ter que lidar com sua própria dúvida em relação ao que estava sentindo. Na verdade, não gostava do jeito dele, era grosseiro. Quando a cumprimentava, falava muito alto, com sua voz desgastada e rouca. Parecia sempre entorpecido pelo álcool, ou por qualquer outra droga, com o rosto avermelhado e os olhos inchados.  Parecia querer mostrar aos amigos algum poder em relação, não só a ela, mas a qualquer mulher que passasse diante dele.
Mas, sem dúvida, os olhos dele a confundiam. Eram dois verdes, quase cinzas, com alguns tons de castanho. Era como um mergulho no mar numa tarde quente de ventos. Teria ele uma alma com tantos matizes, assim como seus olhos? Tanta beleza também a incomodava e, talvez mais por isso, evitasse olhar para ele. Não entendia como um jeito tão grosseiro poderia estar abrigado sob olhos tão intrigantes.
Passou. Sentou-se próximo a uma janela e ficou a observar a cidade iluminada. Mal conseguia olhar para as claras construções, que ofuscavam sua visão e faziam com que ela se refugiasse no negro asfalto. Desviando da claridade incandescente, da brancura das pinturas refletidas naquele meio dia, percorreu o interior do ônibus e seus passageiros. Uma situação fez-lhe deter a atenção: Uma senhora de idade limpava a boca de um rapaz já crescido! Viu aquela cena e sentiu-se estranha. Será que a senhora seria mais uma daquelas que redescobre o amor da juventude nos braços de algum curioso rapaz? Logo descobriu que não.
Apesar de alguns casais parecerem como mãe e filho, aqueles dois não apenas pareciam, eram de verdade. Já havia ouvido falar deles, da senhora com o filho deficiente mental e de sua árdua tarefa de levá-lo para a terapia todos os dias.
Ela olhou para aquele filho crescido de maneira diferente e perguntou a si mesma se ele poderia ser um homem. Alguns fios de barba muito negra, sobre a pele densa e morena, completavam a figura de um rosto de traços fortes. Uma boca muito espessa e rosada, um nariz firme e sobrancelhas grossas. Aliás, depois que descobriu as sobrancelhas do moço, não conseguiu ver mais nada. Elas eram cheias, negras e perfeitas, como as asas de um pássaro raro e forte. Como um abutre gigante. Os olhos dele, não viu, ficaram perdidos em algum lugar no meio da face bronzeada do filho da senhora de idade.
Última parada. Centro. Quando foi descer do ônibus, só conseguia procurar pelo par de asas enegrecido, mas não o encontrou mais, muita gente, confusão. Resolveu o que tinha ido resolver ali, trouxe vários tons de esmaltes vermelhos pra casa, mas não conseguia parar de pensar na cor negra de certas sobrancelhas misteriosas. Aquela imagem mobilizou seu pensamento por mais alguns dias.
Num desses entardeceres no bairro, foi comprar um remédio para a pressão alta de sua mãe, quando avistou na pracinha seu par de asas negras direcionado à brincadeira de alguns moleques. Ele parecia só, mas talvez sua mãe estivesse por perto, vigiando o filho em algum lugar.
Olhando-o daquele modo, a pergunta sobre se aquele poderia ser um homem retornou com ainda mais força e ela esqueceu por alguns instantes de que havia parado no meio da praça. Quando percebeu sua inércia, tentou seguir seu rumo, mas foi atingida em cheio pela bola dos meninos que brincavam de futebol. Ficou mais constrangida que qualquer outra coisa, os moleques pediram desculpas entre risadas maliciosas. Estava desnorteada quando voltou a procurar o rapaz e foi surpreendida pela velocidade com que ele mesmo se aproximava dela. Chegou e, sem dizer nem uma palavra, tocou sua testa com seus dedos ásperos a procura de algum dano.
Ela só conseguia sentir a respiração pesada do rapaz e o ar quente que saía de suas narinas. Deixou que seu rosto fosse tocado por aquela mão grosseira, que não percebeu nenhuma lesão. Ele sorriu e voltou para o banco de onde havia partido. Ela, sem saber o que fazer, tentou se localizar em meio a tudo aquilo e colocou-se, o mais rápido que pode, nos rumos da farmácia.
 Ao voltar, percebeu que ele a olhava fixamente, mas, apesar da curiosidade, não teve coragem de encará-lo e passou rápido em direção a casa. Tentou se ocupar nos cuidados com a mãe. Deu-lhe o remédio, preparou um chá e ofereceu-o quentinho para a mãe, massageou seus pés por mais de meia hora. Quando percebeu que a mãe já estava dormindo, tratou de arrumar rapidamente as coisas no quarto, mas foi interrompida por um barulho que vinha do lado de fora. Olhou pela janela e viu no meio da noite escura, iluminado apenas por uma réstia de luz vinda do poste, seu par de asas negras fixas a caçá-la no interior da humilde casa.
Como um inseto atraído pelo fogo, atravessou o pequeno jardim que separava a porta do portão e abriu-se para o rapaz no meio daquela escuridão. Ele avançou contra o seu corpo como um animal faminto, deitou-a no jardim e despiu o corpo da moça. Ela,  tentava acolher aquela fome com suas carnes macias e quentes, buscava agarrar-se àquele corpo grande e contraído. Sentia em ondas o calor daquele que até bem pouco tempo não sabia se era um homem. Talvez ele pudesse ter-lhe dado provas definitivas, se não fosse por um instante iluminado por um resto de luz.
Enquanto sentia as contrações do corpo dele sobre o seu, viu que uma sobra de luz do poste chegava até aquele rosto forte e suado. Viu as sobrancelhas, o abutre que parecia devorá-la, e ousou descer sua visão. Encontrou não só os olhos do rapaz, mas dois buracos negros, duas bilas opacas intransponíveis, dois caminhos infinitos que não poderiam chegar a lugar nenhum. Procurou algum apoio, percorreu com suas mãos o capim, as plantas, mas parou quando o rapaz deixou seu corpo exausto cair sobre o dela.
Ele levantou e foi embora. Ela olhou as estrelas e temeu. Lembrou que muitas estrelas ainda visíveis já estavam mortas. Talvez fosse ela uma delas. Vestiu-se e voltou para dentro de casa.  Daí em diante foi tudo escuridão. Não conseguia mais distinguir a cor de seus esmaltes, começou a perder clientes, sua mãe não reconhecia mais a cuidadora que a filha costumava ser. Diante da moça, somente dois buracos negros, nada mais. Como se tivesse sido transportada para outra dimensão, outra coisa diferente da vida que tivera até agora. E uma nova pergunta tomou a sua mente: Seria isso o amor?
Os dias foram passando. Avistava o rapaz na rua e ele parecia bem conformado ao lado de sua mãe, babava e se deixava limpar pela velha mulher cansada. O abutre parecia saciado e ela era só carcaça seca exposta ao sol do meio dia. Procurava o olhar dele, queria entender, queria sentir alguma coisa, mas estava adormecida, desencantada, assim como quem anda por aí a procura da outra metade irremediavelmente perdida da alma.
Num meio dia desses, esperava sozinha como antes, na rua deserta, o ônibus sob a sombra na parada. Não estava ansiosa, parecia aceitar bem a demora de sua condução. Talvez o tempo fosse como água, que não tem cabelo. Desistira de tentar deter em suas mãos qualquer um de seus fios inexistentes.
Estava solta quando viu surgir na esquina, o par de olhos verdes intrigantes. O rapaz parecia andar rápido em sua direção, parecia mais alterado que o normal, com olhos muito vermelhos, como labaredas ao redor da mata. Ela ainda deu um passo pra trás, mas ele agarrou-a sem chance de defesa. Ela tentou se defender, correr, gritar, mas tudo foi em vão. Ele arrastou-a para um terreno baldio próximo dali. Jogou-a no chão de areia seca e tirou de dentro de sua bermuda uma lâmina, um caco de espelho, ameaçando cortar o seu rosto, caso ela tentasse fugir ou gritar. Abaixou as calças e forçou seu quadril contra as pernas da mulher. Rasgou as roupas dela com violência, e em movimentos rápidos com a lâmina ia deixando alguns cortes em sua pele. A moça tentava pensar em alguma maneira de sair dali, mas seu corpo adormecido não reagia.
A superfície espelhada da lâmina produziu alguns reflexos projetados na parede de uma das casas ao lado do terreno. E de sua casa, escapando dos olhos de sua mãe, o rapaz de olhos negros, achou estranho aquele reflexo frenético e saiu procurando por sua real fonte no meio da rua. Não demorou muito até que encontrasse a origem da luz na parede.
Ao ver aquela cena horrenda, armou-se com uma barra de ferro que encontrou no chão e partiu para cima do rapaz que atacava a moça. Este se defendeu, perfurando a barriga do outro com a lâmina espelhada, e tentou fugir. Porém, num último impulso, as asas negras em fúria deflagraram vários golpes consecutivos com a barra de ferro, transfigurando a face e ferindo mortalmente o rapaz outrora de olhos verdes integrantes. Sem forças, o filho débil da senhora de idade, caiu por terra, vertendo jatos de sangue muito vivo sobre a areia seca. Não resistiu muito tempo, e logo, assim como o outro, também estava morto.
A mulher, imóvel, perdida entre tantos tons de vermelho vivo, entre dois mortos, olhava fixamente para o céu, para o sol do meio dia. Tentava em vão contornar as bordas daquele círculo solitário de luz incandescente. Desmaiou.
Alguns dias depois, quando acordou no hospital, recebeu a notícia de que a mãe do rapaz débil não resistira à dor de perder o filho e teve um ataque cardíaco fulminante. Sua mãe também, não resistiu muito tempo e, antes mesmo que pudessem terminar os nove meses de gestação, morreu sem conhecer a neta.
Sim, um tempo depois, no amanhecer de um dia, saiu de dentro dela uma criança.
Sua filha nasceu cega, com as pupilas esbranquiçadas. Foram tempos difíceis, mas a mulher procurou nessa condição uma razão para continuar. E, apesar de ser uma ótima mãe, não conseguia olhar direito para a criança, até o dia em que recebeu da menina um cartão escrito em braile. No cartão ela pode ler com a ponta dos dedos: “Mamãe, eu consigo ver você com o coração”. Com esses pontos, pode contornar aquilo a que chamava de amor e viver em paz até o último dia em que esteve de olhos abertos. Fechou os olhos para dormir e, antes de partir, teve um sonho.
Sonhou com um céu azul e vários pássaros negros cruzando o céu.  Ela mesma criou asas e partiu, junto com os outros do bando, numa revoada leve e negra rumo a algo parecido com o infinito.


Um comentário:

Anônimo disse...

caraca... show!