sábado, 1 de setembro de 2012

Sob o signo da luz


 

Meio dia. É mentira que nessa hora as sombras desaparecem. Elas nunca deixam de existir, mesmo quando o sol assume sua posição maior, elas estão ali, escondidas ou roubadas, mas prontas para aparecerem a qualquer momento.
Meio dia. Como comprovamos, numa parada de ônibus nessa hora há sombra. Uma mulher espera a sua condução ali em baixo. Ansiosa, olha em direção ao fim do asfalto com o semblante aflito. Ainda não aprendera a esperar. Precisava ir ao centro, comprar acetona e alguns esmaltes, pois aqueles que as clientes mais gostavam já estavam perto de acabar, e também gostaria de dar uma olhada nos preços de uma nova linha de tons de vermelhos (dos vivos aos vinhos), que sempre faziam sucesso em qualquer época do ano.
Gostava do seu trabalho, e era recompensada por isso, nunca passara uma tarde sem atender pelo menos um cliente. Fazia visitas, atendia em alguns salões de beleza (embora não gostasse tanto do ambiente e dos donos dos estabelecimentos, era necessário), recebia pessoas em sua casa. Às vezes, as “socialites” de outros bairros iam até a porta de sua humilde casa buscar pelo trabalho competente da manicure.
Morava com a mãe, uma senhora que nem era tão idosa, mas que vivia acamada, tomava muitos remédios e dizia que a filha era sua salvação, que agora os papéis estavam invertidos e que a filha passara a ser a mãe e que ela era agora nada além de um feto. A filha não gostava da comparação, mas procurava entender, dando o seu melhor, silenciosamente. Talvez por isso a ansiedade, gostaria de voltar logo para casa, uma vez que sua mãe estava sozinha.
O ônibus não vinha. A rua estava quase deserta, exceto por dois meninos jogando bila, bolinha de gude, no meio do sol escaldante. Nunca havia brincado de bila, mas, quando criança, adorava guardá-las e, às vezes, ficava observando-as contra o sol, como se fossem planetas transparentes, ou como se fossem pupilas e pudesse ensaiar atravessar a alma de alguém. Não entendia como eles estavam suportando pisar naquele chão quente sem chinelos. Meninos...
O calor era tão grande que nem a sombra da parada amenizava a elevada sensação térmica. Nem mesmo seus alaranjados cabelos molhados sobre as costas, nem sua roupa: um short curto e uma camiseta regata. O calor não deixava outra escolha.
Tinha uma relação estranha com seu corpo. Dizia não gostar dele: que era muito magra, tinha pernas finas, pouco peito e, além de tudo, uma barriguinha que saltava dos calções apertados. Mas não gostava de se cobrir. Gostava de sentir os raios do sol fazendo arder a sua pele. Gostava de ver sua pele bronzeada, contrastando com os fios brancos que cuidadosamente mantinha fazendo periodicamente os chamados “banhos de lua”.
Pernas finas inquietas sob a parada e, de repente, o movimento se deteve, o olhar apertou para identificar o nome no letreiro e, enfim, seu destino começava a ser traçado no meio do asfalto, no meio do calor, naquele movimento cheio de luz. Era o seu ônibus!
Subiu pela porta traseira. Antes de passar a roleta, foi surpreendida por um assovio atrevido vindo do último assento. A boca de onde havia saído o som nada gentil era de um rapaz brancoso e aloirado que sempre a cumprimentava de forma meio desastrosa quando se encontravam pelas calçadas e pela pracinha do bairro.
Ele a olhou como que propondo um desafio, e ela, sem saber como reagir diante do par de bilas verdes do rapaz, esboçou um meio sorriso amarelado e dirigiu-se ao trocador, entregando num tilintar as moedas de sua passagem.
Foi rápida, para não ter que lidar com sua própria dúvida em relação ao que estava sentindo. Na verdade, não gostava do jeito dele, era grosseiro. Quando a cumprimentava, falava muito alto, com sua voz desgastada e rouca. Parecia sempre entorpecido pelo álcool, ou por qualquer outra droga, com o rosto avermelhado e os olhos inchados.  Parecia querer mostrar aos amigos algum poder em relação, não só a ela, mas a qualquer mulher que passasse diante dele.
Mas, sem dúvida, os olhos dele a confundiam. Eram dois verdes, quase cinzas, com alguns tons de castanho. Era como um mergulho no mar numa tarde quente de ventos. Teria ele uma alma com tantos matizes, assim como seus olhos? Tanta beleza também a incomodava e, talvez mais por isso, evitasse olhar para ele. Não entendia como um jeito tão grosseiro poderia estar abrigado sob olhos tão intrigantes.
Passou. Sentou-se próximo a uma janela e ficou a observar a cidade iluminada. Mal conseguia olhar para as claras construções, que ofuscavam sua visão e faziam com que ela se refugiasse no negro asfalto. Desviando da claridade incandescente, da brancura das pinturas refletidas naquele meio dia, percorreu o interior do ônibus e seus passageiros. Uma situação fez-lhe deter a atenção: Uma senhora de idade limpava a boca de um rapaz já crescido! Viu aquela cena e sentiu-se estranha. Será que a senhora seria mais uma daquelas que redescobre o amor da juventude nos braços de algum curioso rapaz? Logo descobriu que não.
Apesar de alguns casais parecerem como mãe e filho, aqueles dois não apenas pareciam, eram de verdade. Já havia ouvido falar deles, da senhora com o filho deficiente mental e de sua árdua tarefa de levá-lo para a terapia todos os dias.
Ela olhou para aquele filho crescido de maneira diferente e perguntou a si mesma se ele poderia ser um homem. Alguns fios de barba muito negra, sobre a pele densa e morena, completavam a figura de um rosto de traços fortes. Uma boca muito espessa e rosada, um nariz firme e sobrancelhas grossas. Aliás, depois que descobriu as sobrancelhas do moço, não conseguiu ver mais nada. Elas eram cheias, negras e perfeitas, como as asas de um pássaro raro e forte. Como um abutre gigante. Os olhos dele, não viu, ficaram perdidos em algum lugar no meio da face bronzeada do filho da senhora de idade.
Última parada. Centro. Quando foi descer do ônibus, só conseguia procurar pelo par de asas enegrecido, mas não o encontrou mais, muita gente, confusão. Resolveu o que tinha ido resolver ali, trouxe vários tons de esmaltes vermelhos pra casa, mas não conseguia parar de pensar na cor negra de certas sobrancelhas misteriosas. Aquela imagem mobilizou seu pensamento por mais alguns dias.
Num desses entardeceres no bairro, foi comprar um remédio para a pressão alta de sua mãe, quando avistou na pracinha seu par de asas negras direcionado à brincadeira de alguns moleques. Ele parecia só, mas talvez sua mãe estivesse por perto, vigiando o filho em algum lugar.
Olhando-o daquele modo, a pergunta sobre se aquele poderia ser um homem retornou com ainda mais força e ela esqueceu por alguns instantes de que havia parado no meio da praça. Quando percebeu sua inércia, tentou seguir seu rumo, mas foi atingida em cheio pela bola dos meninos que brincavam de futebol. Ficou mais constrangida que qualquer outra coisa, os moleques pediram desculpas entre risadas maliciosas. Estava desnorteada quando voltou a procurar o rapaz e foi surpreendida pela velocidade com que ele mesmo se aproximava dela. Chegou e, sem dizer nem uma palavra, tocou sua testa com seus dedos ásperos a procura de algum dano.
Ela só conseguia sentir a respiração pesada do rapaz e o ar quente que saía de suas narinas. Deixou que seu rosto fosse tocado por aquela mão grosseira, que não percebeu nenhuma lesão. Ele sorriu e voltou para o banco de onde havia partido. Ela, sem saber o que fazer, tentou se localizar em meio a tudo aquilo e colocou-se, o mais rápido que pode, nos rumos da farmácia.
 Ao voltar, percebeu que ele a olhava fixamente, mas, apesar da curiosidade, não teve coragem de encará-lo e passou rápido em direção a casa. Tentou se ocupar nos cuidados com a mãe. Deu-lhe o remédio, preparou um chá e ofereceu-o quentinho para a mãe, massageou seus pés por mais de meia hora. Quando percebeu que a mãe já estava dormindo, tratou de arrumar rapidamente as coisas no quarto, mas foi interrompida por um barulho que vinha do lado de fora. Olhou pela janela e viu no meio da noite escura, iluminado apenas por uma réstia de luz vinda do poste, seu par de asas negras fixas a caçá-la no interior da humilde casa.
Como um inseto atraído pelo fogo, atravessou o pequeno jardim que separava a porta do portão e abriu-se para o rapaz no meio daquela escuridão. Ele avançou contra o seu corpo como um animal faminto, deitou-a no jardim e despiu o corpo da moça. Ela,  tentava acolher aquela fome com suas carnes macias e quentes, buscava agarrar-se àquele corpo grande e contraído. Sentia em ondas o calor daquele que até bem pouco tempo não sabia se era um homem. Talvez ele pudesse ter-lhe dado provas definitivas, se não fosse por um instante iluminado por um resto de luz.
Enquanto sentia as contrações do corpo dele sobre o seu, viu que uma sobra de luz do poste chegava até aquele rosto forte e suado. Viu as sobrancelhas, o abutre que parecia devorá-la, e ousou descer sua visão. Encontrou não só os olhos do rapaz, mas dois buracos negros, duas bilas opacas intransponíveis, dois caminhos infinitos que não poderiam chegar a lugar nenhum. Procurou algum apoio, percorreu com suas mãos o capim, as plantas, mas parou quando o rapaz deixou seu corpo exausto cair sobre o dela.
Ele levantou e foi embora. Ela olhou as estrelas e temeu. Lembrou que muitas estrelas ainda visíveis já estavam mortas. Talvez fosse ela uma delas. Vestiu-se e voltou para dentro de casa.  Daí em diante foi tudo escuridão. Não conseguia mais distinguir a cor de seus esmaltes, começou a perder clientes, sua mãe não reconhecia mais a cuidadora que a filha costumava ser. Diante da moça, somente dois buracos negros, nada mais. Como se tivesse sido transportada para outra dimensão, outra coisa diferente da vida que tivera até agora. E uma nova pergunta tomou a sua mente: Seria isso o amor?
Os dias foram passando. Avistava o rapaz na rua e ele parecia bem conformado ao lado de sua mãe, babava e se deixava limpar pela velha mulher cansada. O abutre parecia saciado e ela era só carcaça seca exposta ao sol do meio dia. Procurava o olhar dele, queria entender, queria sentir alguma coisa, mas estava adormecida, desencantada, assim como quem anda por aí a procura da outra metade irremediavelmente perdida da alma.
Num meio dia desses, esperava sozinha como antes, na rua deserta, o ônibus sob a sombra na parada. Não estava ansiosa, parecia aceitar bem a demora de sua condução. Talvez o tempo fosse como água, que não tem cabelo. Desistira de tentar deter em suas mãos qualquer um de seus fios inexistentes.
Estava solta quando viu surgir na esquina, o par de olhos verdes intrigantes. O rapaz parecia andar rápido em sua direção, parecia mais alterado que o normal, com olhos muito vermelhos, como labaredas ao redor da mata. Ela ainda deu um passo pra trás, mas ele agarrou-a sem chance de defesa. Ela tentou se defender, correr, gritar, mas tudo foi em vão. Ele arrastou-a para um terreno baldio próximo dali. Jogou-a no chão de areia seca e tirou de dentro de sua bermuda uma lâmina, um caco de espelho, ameaçando cortar o seu rosto, caso ela tentasse fugir ou gritar. Abaixou as calças e forçou seu quadril contra as pernas da mulher. Rasgou as roupas dela com violência, e em movimentos rápidos com a lâmina ia deixando alguns cortes em sua pele. A moça tentava pensar em alguma maneira de sair dali, mas seu corpo adormecido não reagia.
A superfície espelhada da lâmina produziu alguns reflexos projetados na parede de uma das casas ao lado do terreno. E de sua casa, escapando dos olhos de sua mãe, o rapaz de olhos negros, achou estranho aquele reflexo frenético e saiu procurando por sua real fonte no meio da rua. Não demorou muito até que encontrasse a origem da luz na parede.
Ao ver aquela cena horrenda, armou-se com uma barra de ferro que encontrou no chão e partiu para cima do rapaz que atacava a moça. Este se defendeu, perfurando a barriga do outro com a lâmina espelhada, e tentou fugir. Porém, num último impulso, as asas negras em fúria deflagraram vários golpes consecutivos com a barra de ferro, transfigurando a face e ferindo mortalmente o rapaz outrora de olhos verdes integrantes. Sem forças, o filho débil da senhora de idade, caiu por terra, vertendo jatos de sangue muito vivo sobre a areia seca. Não resistiu muito tempo, e logo, assim como o outro, também estava morto.
A mulher, imóvel, perdida entre tantos tons de vermelho vivo, entre dois mortos, olhava fixamente para o céu, para o sol do meio dia. Tentava em vão contornar as bordas daquele círculo solitário de luz incandescente. Desmaiou.
Alguns dias depois, quando acordou no hospital, recebeu a notícia de que a mãe do rapaz débil não resistira à dor de perder o filho e teve um ataque cardíaco fulminante. Sua mãe também, não resistiu muito tempo e, antes mesmo que pudessem terminar os nove meses de gestação, morreu sem conhecer a neta.
Sim, um tempo depois, no amanhecer de um dia, saiu de dentro dela uma criança.
Sua filha nasceu cega, com as pupilas esbranquiçadas. Foram tempos difíceis, mas a mulher procurou nessa condição uma razão para continuar. E, apesar de ser uma ótima mãe, não conseguia olhar direito para a criança, até o dia em que recebeu da menina um cartão escrito em braile. No cartão ela pode ler com a ponta dos dedos: “Mamãe, eu consigo ver você com o coração”. Com esses pontos, pode contornar aquilo a que chamava de amor e viver em paz até o último dia em que esteve de olhos abertos. Fechou os olhos para dormir e, antes de partir, teve um sonho.
Sonhou com um céu azul e vários pássaros negros cruzando o céu.  Ela mesma criou asas e partiu, junto com os outros do bando, numa revoada leve e negra rumo a algo parecido com o infinito.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Meia-volta ao mundo em 380 palavras tortas

Eu... eu parece que me divido numa fenda diagonal que se afunda entre as sobrancelhas. Eu... sinto que vou tolerar menos a noite que as obrigações. Mais uma vez no meio do caminho, mais uma vez no meio da rua do mundo. Desamparo.


Tenho algo a dizer, mas o que preciso é escrever algo novo. Por isso as fendas, os fins, os caminhos intermináveis e as palavras tortas desse universo sem linhas. Os olhos baixos, as mãos estendidas: O que se pode esperar? O mesmo, a girar por séculos a fio.

Não, não é nenhuma guerra santa. Não é uma luta de livre comércio. Não é uma greve geral. Nem uma solicitação pelo telefone. Não é nem mesmo um troco errado no ônibus. Eu só preciso colocar o lixo pra fora. Amanhã o caminhão passa, a vida passa e eu...

Paredes de tijolos ainda não rebocadas, ruas interditadas, prédios em construção. Do que será preciso abrir mão? Perco a cidade de vista, mudo de lugar, altero a rotina, mas é como “meia-volta-volver”, “meia-volta-sentido”.

Na minha pequena caixa, guardo coisas que se parecem com o amor: uma pinça, uma carga de caneta vazia, um sino e alguns parafusos, que se soltaram, lógico, de suas porcas frouxas.

Se eu tivesse um coração, ele seria vasto e daria pra cavalgar em suas planícies. Daria pra brincar de esconde-esconde e depois subir no cajueiro mais alto da montanha. Se eu tivesse um, seria um município, onde você poderia caminhar sem susto ou mesmo dormir eternamente se quisesse.

Não tenho um coração, a cidade é uma bagunça, a caixa onde guardo coisas que se parecem com o amor já está cheia. Assim, sem tantas palavras, a estátua de um nômade com as mãos estendidas sobre um caminhão de desamparo parece mais um carro alegórico. Motivo de riso, ironia, folia, bloco de carnaval.

Todos erguem os braços e balançam como as ondas, como as folhas das grandes árvores, como o sangue dentro dos órgãos. Todos seguem as pausas entre as notas da melodia, entre os versos do refrão. O silêncio dos grandes beijos, dos grandes casos de amor, que se seguem aos suspiros de vida ou de morte. O silêncio dividido, uma marca divisível e uma repetição multiplicada. Até não ter mais, mas mais, mais nada.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eclipse de um ator

A lua parece escondida atrás de nós. Abri a janela do quarto e tomei um susto com a tentativa frustrada de seu sumiço. Eu vi, ela ainda estava ali, sem a sua habitual palidez reluzente, mas ainda ali. Dizem que ela influencia as marés e os humores, talvez por isso o cansaço e a fuga.





Luz e sombra. Aparecer e sumir. Atuar e... O que poderia contrapor um ator? O que seria um a-ator? Seria aquele que não mente ou aquele que não vive? Prefiro rejeitar o benefício da dúvida e do silêncio, e me arriscar um pouco nessas águas tão próximas quanto inesperadas.




Atuar parece ligar-se ao agir, a certo deslocamento no tempo de algo do corpo. Sabemos, num sentido biológico, que um corpo nunca fica completamente inerte, nem na morte, pois a sua decomposição é algo do corpo que se desloca no tempo. Aos poucos ele vai se (re-)incorporando em outros eventos da natureza, como as paisagens e os seres vivos. Porém essa fluidez natural não nos parece identificar o que seja próprio do agir. Falta a essa definição a noção de agente.




Agente, mais do que uma pessoa, ou um sujeito, parece ser um princípio, algo que inicia, que dá partida na ação. Toda ação é única, mesmo que seja uma cópia fiel, será uma cópia fiel única. Todo início é novidade, algo desconhecido até então. Assim, não existem duas ações e todo agente é na verdade um criador.




Não posso deixar de apontar para a construção das palavras até aqui: a-gente, cria-dor. Gente define o ser humano num âmbito coletivo, portanto um a-gente seria aquele que não vem de uma coletividade, mas talvez de uma singularidade. Algo que não surgiria do coletivo, mas que talvez não esteja impedido de ir em direção a isso.




Essa relação entre o singular e o coletivo parece tensa. Seria complicado defini-la como dois pólos distantes ou como uma escala de graduação constante. Singular não significa, ou pelo menos não deveria significar estar só. Singular é ser diferente. Essa noção de diferença implica em uma distinção dentre outros. Portanto, ser singular tanto é ser diferente como é estar entre outros. E o que seria isso a não ser uma expressão de coletividade? A singularidade como característica de uma coletividade.




E poderia a coletividade não ter essa característica, a do singular? Creio que não, apesar de os meios de comunicação em massa, de uma cultura americana universalizada, parecerem confirmar o contrário. Acredito que num jogo entre singularidades, algumas podem reduzir o espaço de expressão das outras. Em nome da sobrevivência da coletividade, algumas singularidades destacam-se e exigem mais expressão por possuírem características mais próprias à vida. Essa exigência reduz o espaço de expressão de um grande número e o que resta são muitas expressões ínfimas, com um reduzido poder criativo. Reduzem-se os criadores.




Talvez as dores também sejam reduzidas, pois a vida da coletividade aparenta estar mais garantida atribuindo o poder de criação a poucos. Porém a criação e o potencial de vida da coletividade é reduzido, uma vez que uma grande expressão é dada às ações de poucos que criam. Tentar criar algo fora desse sistema talvez exija ter que lidar com dores: a dor própria do ato de criar e a dor de aparentemente estar indo contra uma coletividade, mas que na verdade, pode ser apenas uma forma diferente de conceber o coletivo, ampliando as possibilidades de vida a partir de mais criações singulares.




Sinto que isso está próximo de uma grande confusão, se é que em algum momento isso foi claro. Mas peço um esforço de compreensão e insistência que as palavras se pretendem breves e que o final, mesmo que indefinitivo, não tarda a chegar. Tudo isso pretende ajudar em um percurso em direção a um bem maior.




Portanto, o ator dentro da coletividade tem a árdua tarefa de se insurgir, de brotar, de romper com a ordem dominante. Ele deve buscar a expressão, a amplitude disso, a partir de sua singularidade, mas em nome do coletivo, potencializando a voz de todos. Mas pra isso, precisa fazer a sua voz ser ouvida em alto e bom som. Esse é o caminho.




Agora que breviamente definimos um ator, o que seria um a-ator? Ele existe? Existiria tanto quanto a sombra e o sumiço?




A sombra é a existência da falta de luz e o sumiço, a existência de um vazio deixado por algo que um dia esteve ali. Portanto a-atuar seria a existência de um uma falta de atuação, que está eclipsada, sombreada, desaparecida. Mas que existe, mesmo que seja representada por uma falta.




Porém seria impossível falar de um a-ator, pois como Boal já dizia, “atores somos todos nós”. Para não atuar, deveríamos tentar acabar com pelo menos uma das condições: o tempo, o corpo ou o agente. Porém, essa tentativa seria um paradoxo, pois também seria uma ação feita por um agente no tempo e com um corpo.




Enquanto atores, podemos tentar desviar o foco, reduzir a ação, mas nunca deixar de atuar. Atuando mesmo com a ausência. Podemos eclipsar o ser-ator em nome do grande globo coletivo. Porém, assim como a lua, no esplendor de sua singularidade cósmica, podemos voltar a brilhar e, porque não dizer, ousar influenciar as marés e até mesmo os humores... coletivos em sua singularidade.





quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Par




Quero me perder sob a tua venta e, de veneta, inventar cores para coroar teu queixo de azul e orquídeas. Vamos pegar o primeiro ônibus, a última estrela ainda se demora no céu, a vida trilha fótons de orvalho e nós precisamos escrever um filho com cuspe e amor. Preciso estacionar meu controle remoto na faixa 13 daquele cd que você baixou e que eu esqueci de lançar. Vamos pedalar de areia? Será que demora até a sujeira cair do buraco e desviar labaredas com patas e óculos? Preciso ir, vou ler uma chuva com grãos de teus dedos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tudo vale a pena?


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.

Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.


Álvaro de Campos

terça-feira, 4 de maio de 2010

Espirais


A cobra morde o rabo. Será que é possível mesmo? No auge de sua esperteza chegar a se ver numa situação tão inesperada, tão vergonhosa? Eu acredito nos ciclos mas não sei se nos círculos fechados. Até porque nada é igual, nada. O momento já foi. O que acontece são ondas quase semelhantes, são espirais que passam em outro caminho com uma certa similaridade.


Em outras palavras, existe algo de novo em mais um dos inícios da minha vida. Eu, o Antonio, o teatro e o mundo. Desafio, um pouco de medo, mas esperança. Esperança de ultrapassar as barreiras que me cercam a alma, lutando por sentir novamente sua essência leve e ampla.


Chico Buarque regressa sempre e todas as suas palavras ciganas. Voltam os textos, voltam os pensamentos, a imaginação, a insônia. Eu volto, diferente, como uma mãe que sai da maternidade sem o filho. Volto. Nu com a minha música. Rei dos meus vazios. Cantando, vivendo, procurando o que seja essa coisa toda a que chamamos de amor.


E as cobras continuam mordendo os rabos, alheios!


Gostinho de infância, sempre:



segunda-feira, 15 de março de 2010

Pra semana...

Oi. É madrugadão já de uma segunda de março desse ano 10. Mas essa segunda ainda está por vir, porque o cheiro é ainda de domingo primeiro, e algum dos apertamentos do lado resolveu queimar pipoca na primeira hora desse novo dia. Foi mais um clássico domingo de solidão dessa minha nova vida, um aperto só, há um ano. Tinha um monte de planos pro dia de hoje, assim como tenho para o resto da semana (não sei se o suficiente para o resto da vida). E mesmo duvidando da durabilidade, alguns desses planos, como sempre, não foram postos em prática. Mas outros sim, como esse de agora.
E é tudo tão corrido, de um lado pro outro, subindo e descendo, girando, procurando, saindo. Aqui existem duas saídas, a da porta, que nos leva ao corredor, e a da janela, que nos apresenta o cemitério, sem grandes agitações, essas ficam pra dentro dessa cabeça quase oca, quase acesa, quase minha. Tenho uma amiga que sempre me faz o convite para dominar o mundo. E eu digo eternamente amanhã. Mas hoje, esse final de domingo, já é amanhã, já é segunda, chegou o dia. Pena que agora eu tenho que ir dormir... Fazendo planos pra semana...

Ah, terça e quarta tem Concerto Ispinho e Fulô, indicação de Marina, que diz imperdível. Eu vou!


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um dia dividido


Em momentos como esse, eu aconselho-me o isolamento. Será que é possível desafiar tanta coisa que está aí? Eu sou só aquele menino que esperava na rua, vendo os outros brincarem. Eu sou aquele que fugiu de casa pra dar a volta no quarteirão. Eu sou aquele que escreve cartas e nunca as entrega. Eu sou aquele pra quem todos apontam. E sou aquele para quem ninguém olha. Sou aquele que anda curvado e que não sustenta olhares. O fofo e o aquele cara. Esse cara que escreve essas coisas. Como posso?
Mas eu faço, sim, eu corro, mesmo sem saber se para, ou de, alguém ou algum lugar. Essa parece ser a minha natureza, descoberta a essa altura de já alguns ciclos, a da transformação. Tenho uma face para cada época do espelho, e tenho todos os perfumes de meus amores em mim. Cheiros de vidas divididas, todas nessa cidade de luz e vento. Logo as lembranças irão, assim como tudo que existe. Eternidade é um sentimento, nada mais. E estas são apenas palavras que pretendem arrancar os alicerces dos arranha-céus silenciosamente.
Talvez por isso não consiga mais dormir, porque para o lar que eu estou inventando não existe alicerce e nem segurança. Tudo está aberto, principalmente o chão. Tudo está possível e eu não sou lugar nenhum. Não pense mais. Já ouviu isso? Pois eu sim, e desde aí que não me encontro. Fui embora e nem percebi.
Bom, já que não durmo mesmo, talvez possa encontrar meu destino no final da caminhada. Vou arrumar as malas, pra ver se encontro pelo menos o menino que eu era, ou quem sabe algum sabor novo que me devolva a ignorância de tudo aquilo a que costumamos chamar de vida. Será que devo seguir meu conselho de solidão, ou permitir o que tiver de ser? Nem sei, se soubesse acho que não teria escrito isso aqui.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Como os deuses

E os aviões continuam caindo sobre os prédios em Fortaleza. Correr pela cidade não adianta, nem procurar as avenidas, nem as ruelas mais escondidas. A cidade está tomada. Não é possível mais voar para longe, qualquer tentativa, será um desastre, um desespero. E é possível acompanhar o sofrimento deles em seus últimos instantes, antes da morte iminente. Todos gritam. A cidade está abandonada.
 E deus, e todos os deuses do passado? Observam, regados a vinho e a filosofias, pensando nas escolhas de cada um diante de tal extrema situação e, depois, decidirão, darão o veredicto. Que seja feita  justiça. Esse merece glória, aquele, mais sofrimento. Longe, bem longe dos nossos mistérios. Dizem que uma mulher enlouqueceu, correu para a borda mais distante da cidade, quase dentro do mar, e rabiscou com uma pedra as iniciais do próprio nome em seu joelho. Alguns dizem que foi estuprada, outros que era tudo culpa do seu próprio desejo, e ela falava tanto, que não era possível encontrar a verdade. O homem que a amava, entrou num pequeno barco, era a única saída daquela situação. Quando a fumaça da cidade em chamas ficou para trás, e só era possível ver água e céu, pensou em sua vida. Nunca hava parado, a vida era uma sequência de acontecimentos, mas alí sua existência se abrandara e foi possível lançar um olhar sobre os acontecimentos. O abandono, a culpa, a morte. Solidão. Colocou sua mão dentro da água e começou a fazer pequenos movimentos, que produziam infinitos círculos concêntricos. Seu desejo de ser imortal subiu tão alto que os círculos se transformaram em ondas gigantes, cada vez maiores, até que uma explosão de desejo fez erguer a maior onda de todos os tempos e, avançando por toda a cidade, tragou-a para o ventre do mundo, de onde havia saído e desapareceu. Sem dúvida que o homem morreu, mas, como um deus, fez algo muito poderoso, mesmo sendo esse algo poderoso, uma coisa muito semelhante ao nada.

domingo, 23 de agosto de 2009

Fim da linha


Ele desceu do ônibus, meio desconfiado do resto do mundo, andando como se soubesse muito bem o que viera fazer ali. Tinha pensado em ver o mar.

Quando a aula terminou, saíram todos, juntando-se em dois, formando grupos, fazendo planos em plena terça de agosto para o final de semana. Pensou em aproximar-se do cara que havia lhe perguntado as horas durante a aula, puxar conversa, alguma piada sobre a gagueira patética do professor, mas a segurança dos passos dele em direção à saída da faculdade impediu a sua sempre frágil coragem de enfrentar o medo e descobrir algo novo.

Poderia ir pra casa, mas já sabia seu destino. Ligaria o computador com o pretexto de estudar, de terminar aquele trabalho imenso para segunda e não sufocar mais um final de semana, mas acabaria caindo em salas de bate-papo, empolgando-se de primeira com alguém, uma música em comum, um sonho em comum, e encerrar-se-iam os assuntos, evidenciar-se-iam as diferenças e, por fim, o tédio. Desligaria exausto, aborrecido em um pão com salsicha sobrado da manhã com um resto de coca do sábado na própria garrafa plástica de dois litros. Mas não naquela noite, não naquela terça qualquer de um agosto qualquer de sua única vida.

Alguma coisa na figura patética do professor lhe fizera lembrar seu pai e das duas vezes em que ele levara a família à praia. E assim, surgiu um novo destino, de certa forma seguro, uma vez que ainda não anoitecera e que a mãe ficaria ocupada demais com coisas da igreja, não tendo tempo pra ligar e lhe encher de perguntas.

Sentiu que as coisas começaram a mudar, quando teve que atravessar a rua e esperar o ônibus na parada do outro lado, já que o destino de sua casa e o destino da praia eram opostos, pelo menos, em relação ao ponto em que estava agora.

Dizem que faz bem ao cérebro percorrer um caminho novo. Disso ele não sabe, mas gosta de ver a cidade atingida pelo manto de raios infinitos e poentes do sol. Os coqueiros, as mangueiras, os muros de tijolos ainda não rebocados, entulhos nas calçadas, o cimento, algumas casas em construção, outras em destruição, prédios gigantes ao fundo. Os mesmos elementos de seu caminho cotidiano mudados apenas em sua ordenação e intensidade, exceto por ele. A linha esverdeada começava a aparecer por entre as construções, agigantava-se diante dos tremores, do asfalto fajuto e ralo, dos solavancos desse quase final de caminho. Última parada.
Andou por entre as pessoas, velhos, turistas, prostitutas, mirins, desorientados, malandros. O que tinha ido fazer ali? Não havia nada dele naquele pedaço de mundo, tudo era estranheza, apesar de responder, caso perguntassem, que conhecia muito bem a realidade política, econômica e social da cidade. Pressentia, e somente isso, que tinha sido parido pela televisão e cuspido para o mundo pela internet, ligando-o a milhares de informações sem o menor sentindo, a aventuras cheias de personagens sem alma, sem motivo, a palavras que apenas repetem e repetem-se em quase todos os idiomas. A vida estava fora de tudo. Anoitecera.

Atravessou tudo que o separava da areia, incluindo a vontade terrível de voltar pra casa. Deixou cair sua cargo sempre cheia de coisas inúteis, parou um instante, olhou ao redor e, em seguida foi a vez de ele próprio lançar-se ao chão. Vasculhou os bolsos, transferiu suas preocupações para a mochila. O imenso mar bravio a sua frente, esbaforido em ondas cheias de cólera contra o continente, parecia querer lançar ou tragar qualquer coisa que se aproximasse de sua existência vasta, profunda e selvagem. Repousou sobre a areia, olhou a lua e toda a sua luminosidade roubada, o seu vagar solitário sobre a terra. Fechou os olhos por um instante.

Viu aquele cara com quem não conseguira trocar palavra, dobrou-o, como se dobra uma camiseta e colocou-o em uma caixa, em seguida foi a vez do professor gago, outra caixa e seu pai, e por fim sua mãe, encaixotou-a também. Uma a uma, enterrou cada caixa na areia e, em seguida, subiu em uma imensa pedra, agarrando-se a ela como um bebê em miniatura agarraria a seio materno. E saiu navegando sobre a pedra para o longe no oceano. Uma sensação molhada chegou até sua pele, seu coração parecia acolhido e aquecido era o ar de seu peito.

Tateou ao lado em vão, ela não estava ali. Levaram-lhe a mochila, junto com telefone, chaves, livros, anotações, dinheiro, identidades. Algo deveria estar errado, porque, apesar da enorme confusão que seriam os próximos dias para contar e recontar o que acontecera e recuperar tudo que fora perdido, sentia-se estranhamente bem. Não havia mais nada a fazer.


Dirigiu um último olhar ao mar, rápido, pois já lhe dera o suficiente praquele tempo. Voltava a enrolar o fio que o trouxera até ali, andava em direção a casa percorrendo o mesmo caminho, porém como se este fosse um reflexo no espelho, onde todos os elementos estão perfeitamente invertidos, menos ele. Seus passos eram firmes e rápidos, seu corpo parecia andar sobre um cavalo, ou ser o próprio, não sentia cansaço, lembrava que cães domésticos às vezes voltam a ser selvagens e que grandes distâncias sempre foram percorridas a pé e solitariamente, como os índios que amavam, guerreavam ou iludiam-se por estas terras em outro tempo.

Quando chegou a altura da faculdade, seu ponto de partida, a hora avançada trouxera para a beira da estrada alguns travestis, seres que não passavam de um buraco negro em sua cabeça e podia até confessar, lhe traziam um pouco de medo, eles eram homem e mulher, amante e amado, eram o suficiente para si. Um deles atreveu-se a lhe dispensar um “E aí, meu amor?” que lhe ferveu o sangue e lhe fez apressar mais ainda o passo.

Ao dobrar a rua de sua casa, notou o relógio ainda consigo, apontando duas e trinta e sete da quarta-feira. Bateu no portão, e logo veio sua mãe, armada de perguntas infinitas, elaboradas e repetidas em apenas poucas horas de espera, talvez querendo dizer sem sucesso: não me torne uma pessoa má. No meio delas não sabe se ouviu ou se só pensou, “Como você está?” e o mundo inteiro o abandonou, encontrou sua insuportável solidão acompanhada de todos os seus demônios, “Amanhã conversamos.”, trancou-se em seu quarto.

Depois de uns quinze minutos, o silêncio ocupou as partículas do cômodo, e antes tivesse permanecido, teria evitado aquele encontro. Em sua cama, a poucos minutos de dormir, observava as figuras obscuras formadas com fragmentos de luz vindos das frestas da janela. Entre essas formas nada familiares, algo mais estava ali, havia outro olhar, outra presença. Mais uma vez o medo, a vontade de dormir, de sair, de não enfrentar e dar um passo contra o seu destino. O barulho ensurdecedor do ar entrando pelas narinas e saindo aquecido pelas fuças, pelos poros... A forma negra ganhou mais alguns contornos e fragmentos, era grande, coberta de pelos, fedia a sangue podre, tinha um rosto pesado como de um touro, com grandes narinas e íris a tomar quase todo o globo ocular, era um homem, um animal, um monstro. O que você quer? Quero que me conheça. E por que eu deveria? Você não deve, mas quer, precisa urgente disso. O monstro, quase a encostar no teto a cabeça, tinha a postura de um caçador, tratava-o como presa, já ele reduzido, pensando na melhor maneira de sair dessa situação, procurou pedras para atacar o gigante, mas não as encontrou, talvez pela sorte imediata do acontecimento, ou por seu cansaço de uma vida inteira, gritou. Saia daqui, você não existe, nem nunca existiu. Sua ordem fora enterrada e suas palavras saiam trêmulas e desconexas. Por favor, vá embora, não posso, não mais. E aonde eu devo ir? Para o buraco de onde saiu. Isso já não há, o fio que me prendia foi cortado esta noite e será preciso que encontre um novo lugar para mim.

O rapaz, pequeno, frágil, pálido, estendeu a mão com um temor impossível de qualquer medição. O monstro entregou-lhe a pata pesada e deixou-se puxar até sentar ao lado dele. Saiu da boca de ambos, precisamente ao mesmo tempo, “Não tenha medo”. O rapaz arrastou aquele ser bruto e gigantesco pela cama, acomodou-o em seu colo, abraçando-o, e sussurrou-lhe ao ouvido uma canção de ninar, desta vez sem bois de cara preta nem cucas, uma música que trazia a saudade de um tempo que ainda estava para acontecer. Sua mão sobre o torso do monstro sentiu que a respiração se abrandara e que este já estava entregue ao seu novo destino. Não demorou muito até que ele mesmo, agarrado ao seu maior pesadelo, fechasse os olhos e, enfim, descansasse em paz.